terça-feira, 23 de setembro de 2014
Noite
Estávamos sentados ali já fazia um bom tempo. A noite já chegara e com ela a lua e as estrelas, ao meu ver uma lua especialmente cheia, parecia querer desafiar a minha amada para decidir qual é a mais bela.
Dei-lhe um beijo e deitei, admirando o céu e sua infinitude, ela fez o mesmo.
Passamos alguns minutos em silencio, apenas admirando como algo pode ser tão dúbio como a noite, ao mesmo tempo que é escura, é brilhante, ao mesmo tempo que é enorme, parece pequeno e feito somente para nós.
Ela me fitou com aqueles grandes olhos castanhos e disse :
— Sabe, vai chegar um dia, distante ou próximo, você vai estar diferente, eu também. — Tornou a observar a imensidão da noite.
— Quando esse dia chegar, você não vai mais me querer, vai ir embora e nunca mais vai voltar. Você me conhece, vou chorar por um tempo, mas vai passar.
Por mais alguns minutos o silencio pareceu eterno e cruel.
— Mas, tenho que admitir. — Disse ela, voltando a me encarar. — Jamais se farão noites tão bonitas quanto esta.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
A vida secreta de Walter Mitty
de James Thurber
- Vamos atravessar! – a voz do Comandante era como o quebrar de uma fina camada de gelo. Estava de uniforme de gala e tinha o boné branco, cheio de galões, caído displicentemente sobre um dos olhos frios e cinzentos.
- Vamos atravessar! – a voz do Comandante era como o quebrar de uma fina camada de gelo. Estava de uniforme de gala e tinha o boné branco, cheio de galões, caído displicentemente sobre um dos olhos frios e cinzentos.
- Não vamos conseguir, Senhor Comandante. Vem aí um furacão, se quer saber a minha opinião.
- Não quero saber a sua opinião, Tenente Berg – disse o Comandante – Potência máxima! Aumentem a velocidade de rotação até os 8.500! Vamos atravessar!
Intensificou-se o bater dos cilindros: tá-poquetá-poquetá-poquetá-poquetá-poquetá! O Comandante ficou por um momento a observar o gelo que se formava na janela do piloto. Em seguida girou uma fileira de botões complicados.
- Liguem o motor auxiliar número 8! – gritou.
- Liguem o motor auxiliar número 8! – repetiu o Tenente Berg.
- Potência total na torre número 3! – gritou o Comandante.
- Potência total na torre número 3!
A tripulação, ocupada nas várias tarefas dentro do gigantesco hidroavião da Marinha, propulsionado por oito motores, entreolhava-se e sorria.
- O Velho vai fazer-nos atravessar – diziam entre si – O Velho não tem medo do Inferno…
- Não quero saber a sua opinião, Tenente Berg – disse o Comandante – Potência máxima! Aumentem a velocidade de rotação até os 8.500! Vamos atravessar!
Intensificou-se o bater dos cilindros: tá-poquetá-poquetá-poquetá-poquetá-poquetá! O Comandante ficou por um momento a observar o gelo que se formava na janela do piloto. Em seguida girou uma fileira de botões complicados.
- Liguem o motor auxiliar número 8! – gritou.
- Liguem o motor auxiliar número 8! – repetiu o Tenente Berg.
- Potência total na torre número 3! – gritou o Comandante.
- Potência total na torre número 3!
A tripulação, ocupada nas várias tarefas dentro do gigantesco hidroavião da Marinha, propulsionado por oito motores, entreolhava-se e sorria.
- O Velho vai fazer-nos atravessar – diziam entre si – O Velho não tem medo do Inferno…
- Não vá tão depressa! Você está correndo demais! – disse a Sra. Mitty – Por que você dirige tão rápido?
- Hã? – disse Walter Mitty. Espantado, olhou para a mulher, sentada no banco ao seu lado. Pareceu-lhe muito pouco familiar, como uma desconhecida que no meio da multidão lhe tivesse gritado uma coisa qualquer.
- Você estava a mais de oitenta por hora – disse – Você sabe que não gosto de andar a mais de sessenta. Você estava a mais de oitenta.
Walter Mitty continuou a conduzir em silêncio até Waterbury, enquanto o rugido do SN202, que enfrentava a pior tempestade em vinte anos de Aviação Naval, desaparecia nas remotas e íntimas rotas aéreas do seu pensamento.
- Você está ficando tenso outra vez – disse a Sra. Mitty – Você está num daqueles dias. Devia deixar que o Dr. Renshaw o examinasse.
- Você estava a mais de oitenta por hora – disse – Você sabe que não gosto de andar a mais de sessenta. Você estava a mais de oitenta.
Walter Mitty continuou a conduzir em silêncio até Waterbury, enquanto o rugido do SN202, que enfrentava a pior tempestade em vinte anos de Aviação Naval, desaparecia nas remotas e íntimas rotas aéreas do seu pensamento.
- Você está ficando tenso outra vez – disse a Sra. Mitty – Você está num daqueles dias. Devia deixar que o Dr. Renshaw o examinasse.
Walter Mitty parou o carro em frente ao prédio onde a mulher ia ao cabeleireiro.
- Lembre-se de comprar as galochas enquanto estou no cabeleireiro – disse ela.
- Não preciso de galochas – disse Mitty.
Ela devolveu o espelho à bolsa.
- Já discutimos isto – disse, saindo do carro – Você não é mais uma criança.
Ele fez o motor acelerar um pouco.
- Lembre-se de comprar as galochas enquanto estou no cabeleireiro – disse ela.
- Não preciso de galochas – disse Mitty.
Ela devolveu o espelho à bolsa.
- Já discutimos isto – disse, saindo do carro – Você não é mais uma criança.
Ele fez o motor acelerar um pouco.
- Por que você não coloca as luvas? Você perdeu as luvas? Walter Mitty levou a mão ao bolso e tirou as luvas. Colocou-as, mas depois que a mulher virou-se e entrou no prédio e que ele chegou ao sinal, começou a tirá-las novamente.
- Vamos com esse carro! – repreendeu o policial, quando o sinal abriu. Mitty tirou apressadamente as luvas e avançou num solavanco. Dirigiu sem destino pelas ruas durante algum tempo e passou em frente ao hospital, a caminho do estacionamento.
- …É o banqueiro milionário, Wellington McMillan – disse a bonita enfermeira.
- Sim? – respondeu Walter Mitty, tirando lentamente as luvas – Quem está tomando conta do caso?
- O Dr. Renshaw e o Dr. Benbow, mas há também dois especialistas, o Dr. Remington de Nova Iorque e o Dr. Pritchard-Mitford de Londres. Veio de avião.
Abriu-se uma porta em um corredor comprido e frio e apareceu o Dr. Renshaw. Parecia aturdido e extenuado.
- Olá, Mitty – disse – Estamos passando um mau bocado com McMillan, o banqueiro milionário que é amigo íntimo de Roosevelt. Obstrução terciária de canal. Gostaria que você o olhasse.
- Com muito prazer – disse Mitty.
- Vamos com esse carro! – repreendeu o policial, quando o sinal abriu. Mitty tirou apressadamente as luvas e avançou num solavanco. Dirigiu sem destino pelas ruas durante algum tempo e passou em frente ao hospital, a caminho do estacionamento.
- …É o banqueiro milionário, Wellington McMillan – disse a bonita enfermeira.
- Sim? – respondeu Walter Mitty, tirando lentamente as luvas – Quem está tomando conta do caso?
- O Dr. Renshaw e o Dr. Benbow, mas há também dois especialistas, o Dr. Remington de Nova Iorque e o Dr. Pritchard-Mitford de Londres. Veio de avião.
Abriu-se uma porta em um corredor comprido e frio e apareceu o Dr. Renshaw. Parecia aturdido e extenuado.
- Olá, Mitty – disse – Estamos passando um mau bocado com McMillan, o banqueiro milionário que é amigo íntimo de Roosevelt. Obstrução terciária de canal. Gostaria que você o olhasse.
- Com muito prazer – disse Mitty.
Na sala de operações houve apresentações sussurradas.
- Dr. Remington, Dr. Mitty. Dr. Pritchardd-Mitford, Dr. Mitty.
- Li o seu livro sobre estreptotricose – disse Pritchard-Mitford, apertando-lhe a mão – Um trabalho brilhante.
- Obrigado – respondeu Walter Mitty.
- Não sabia que você estava nos Estados Unidos, Mitty – resmungou Remington – Chamaram-me e ao Mitford para ensinar o padre nosso ao vigário!
- Você é muito amável – disse Mitty.
- Dr. Remington, Dr. Mitty. Dr. Pritchardd-Mitford, Dr. Mitty.
- Li o seu livro sobre estreptotricose – disse Pritchard-Mitford, apertando-lhe a mão – Um trabalho brilhante.
- Obrigado – respondeu Walter Mitty.
- Não sabia que você estava nos Estados Unidos, Mitty – resmungou Remington – Chamaram-me e ao Mitford para ensinar o padre nosso ao vigário!
- Você é muito amável – disse Mitty.
Uma máquina enorme, complicada, ligada à mesa operatória, com muitos tubos e fios, começou nesse momento a fazer poquetá-poquetá-poquetá. – O novo aparelho de anestesia está falhando! – gritou um estagiário – Não há ninguém no país que saiba consertá-lo!
- Fique quieto! – disse Mitty numa voz baixa e controlada.
Correu para a máquina, que agora fazia poquetá-poquetá-pip-poquetá-pip. Pôs-se a dedilhar delicadamente uma fileira de botões cintilantes.
- Dêem-me uma caneta-tinteiro! – disse, áspero.
Alguém lhe passou uma caneta-tinteiro. Ele puxou um pistão avariado da máquina e introduziu a caneta no seu lugar.
- Isto vai agüentar uns dez minutos – disse – Continuem a operação.
Uma enfermeira veio correndo e sussurrou uma coisa qualquer a Renshaw, e Mitty viu o médico empalidecer.
- Instalou-se a coriopse! – exclamou Rennshaw, nervoso – E se você tomasse o meu lugar, Mitty?
Mitty olhou para ele, para a figura amedrontada de Benbow, que suava em bicas, e para a fisionomia carregada e hesitante dos dois grandes especialistas.- Se você prefere – disse.
Vestiram-lhe uma bata branca; ajustou a máscara e colocou umas luvas finas; as enfermeiras passavam-lhe reluzentes instrumentos cirúrgicos…
- Fique quieto! – disse Mitty numa voz baixa e controlada.
Correu para a máquina, que agora fazia poquetá-poquetá-pip-poquetá-pip. Pôs-se a dedilhar delicadamente uma fileira de botões cintilantes.
- Dêem-me uma caneta-tinteiro! – disse, áspero.
Alguém lhe passou uma caneta-tinteiro. Ele puxou um pistão avariado da máquina e introduziu a caneta no seu lugar.
- Isto vai agüentar uns dez minutos – disse – Continuem a operação.
Uma enfermeira veio correndo e sussurrou uma coisa qualquer a Renshaw, e Mitty viu o médico empalidecer.
- Instalou-se a coriopse! – exclamou Rennshaw, nervoso – E se você tomasse o meu lugar, Mitty?
Mitty olhou para ele, para a figura amedrontada de Benbow, que suava em bicas, e para a fisionomia carregada e hesitante dos dois grandes especialistas.- Se você prefere – disse.
Vestiram-lhe uma bata branca; ajustou a máscara e colocou umas luvas finas; as enfermeiras passavam-lhe reluzentes instrumentos cirúrgicos…
- Para trás, chefe! Cuidado com esse Buick! – Walter Mitty pisou fundo no freio – Você está na contra-mão! – disse o empregado do estacionamento, olhando fixamente para Mitty.
- Ih! é! – murmurou Mitty.
Com cautela, começou a dar marcha-à-ré na pista que dizia “Saída”.
- Deixe-o aí! – disse o empregado – Eu o dirijo.
Mitty saiu do carro.
- Olhe, é melhor deixar a chave.
- Ah! é! – disse Mitty, passando-lhe a chave da ignição.
O empregado saltou para dentro do carro, recuou com uma perícia insolente, e o arrumou no lugar.
- Ih! é! – murmurou Mitty.
Com cautela, começou a dar marcha-à-ré na pista que dizia “Saída”.
- Deixe-o aí! – disse o empregado – Eu o dirijo.
Mitty saiu do carro.
- Olhe, é melhor deixar a chave.
- Ah! é! – disse Mitty, passando-lhe a chave da ignição.
O empregado saltou para dentro do carro, recuou com uma perícia insolente, e o arrumou no lugar.
São tão terrivelmente convencidos, pensou Walter Mitty, caminhando pelas ruas do centro da cidade; pensam que sabem tudo. Uma vez tentara tirar as correntes das rodas do carro, nos arredores de New Milford, e as enrolou todas nos eixos. Teve que vir um homem num reboque para desenrolá-las. Um jovem mecânico que não parava de rir. Desde então a Sra. Mitty sempre o fazia levar o carro à oficina para tirarem as correntes. Da próxima vez, pensou, vou com o braço na tipóia; eles assim já não vão sorrir. Vou com o braço na tipóia e eles hão de ver que eu não poderia de modo nenhum tirar as correntes sozinho. Enterrou o pé na lama do passeio. – Galochas – disse para consigo mesmo, e pôs-se à procura de uma sapataria.
Quando voltou para a rua, com as galochas numa caixa debaixo do braço, Walter Mitty começou a pensar qual seria a outra coisa que a mulher lhe tinha dito para trazer. Ela falara duas vezes, antes de saírem de casa para Waterbury. De certa forma ele detestava estas viagens semanais à cidade – sempre fazia alguma coisa errada. Lenços de papel – pensou – pomada, lâminas de barbear? Não. Pasta de dentes, escova de dentes, bicarbonato, esponja-de-aço, desiderato, estardalhaço? Desistiu. Mas ela ia lembrar-se. “Onde está o não-sei-o-quê”, perguntaria. “Não me diga que esqueceu do não-sei-o-quê”. Passou um rapaz a vender jornais e a gritar uma coisa qualquer sobre o julgamento de Waterbury.
- …Talvez isto lhe refresque a memória – O promotor agitou uma arma pesada diante da figura calma no banco das testemunhas – Já viu isto alguma vez?
Walter Mitty pegou a arma e a examinou com perícia.
- É a minha Webley-Vickers 50.80 – disse calmamente.
Um zum-zum de agitação percorreu o tribunal. O Juiz apelou à ordem.
- Imagino que o senhor seja um atirador de primeira com todo o tipo de armas de fogo – prosseguiu o promotor, num tom insinuante.
- Objeção! – gritou o advogado de Mitty – Demonstramos que o réu não pode ter disparado. Demonstramos que ele tinha o braço direito na tipóia, na noite de 14 de julho.
Walter Mitty levantou a mão por um momento e os advogados se calaram.
- Com todo o tipo de arma conhecido – disse, tranqüilo – eu poderia ter matado Gregory Fitzhurst a cem metros de distância com a minha mão esquerda.
Gerou-se o pandemônio na sala. Elevou-se sobre o tumulto um grito de mulher e de repente uma bela morena estava nos braços de Mitty. O promotor esbofeteou-a selvagemente. Sem se levantar da cadeira, Mitty deu ao homem o que ele merecia, na ponta do queixo.
- Cão desprezível!…
Walter Mitty pegou a arma e a examinou com perícia.
- É a minha Webley-Vickers 50.80 – disse calmamente.
Um zum-zum de agitação percorreu o tribunal. O Juiz apelou à ordem.
- Imagino que o senhor seja um atirador de primeira com todo o tipo de armas de fogo – prosseguiu o promotor, num tom insinuante.
- Objeção! – gritou o advogado de Mitty – Demonstramos que o réu não pode ter disparado. Demonstramos que ele tinha o braço direito na tipóia, na noite de 14 de julho.
Walter Mitty levantou a mão por um momento e os advogados se calaram.
- Com todo o tipo de arma conhecido – disse, tranqüilo – eu poderia ter matado Gregory Fitzhurst a cem metros de distância com a minha mão esquerda.
Gerou-se o pandemônio na sala. Elevou-se sobre o tumulto um grito de mulher e de repente uma bela morena estava nos braços de Mitty. O promotor esbofeteou-a selvagemente. Sem se levantar da cadeira, Mitty deu ao homem o que ele merecia, na ponta do queixo.
- Cão desprezível!…
“Ração pra cachorro”, disse Walter Mitty. Estacou o passo e os prédios de Waterbury emergiram do tribunal nebuloso para novamente o rodearem. Uma mulher que passava sorriu.
- Ele disse “ração pra cachorro” – disse ao seu companheiro – Aquele homem disse “ração pra cachorro”, falando sozinho.
Walter Mitty apressou-se. Entrou numa loja de animais, não a primeira que encontrou mas uma segunda, menor, um pouco acima na mesma rua.
- Eu queria ração pra cachorro de raça, pequeno – disse ao empregado.
- Deseja alguma marca em particular?
O melhor atirador do mundo pensou por um momento.
- Na caixa está escrito: “Os cachorros ladram por ela” – disse Walter Mitty.
- Ele disse “ração pra cachorro” – disse ao seu companheiro – Aquele homem disse “ração pra cachorro”, falando sozinho.
Walter Mitty apressou-se. Entrou numa loja de animais, não a primeira que encontrou mas uma segunda, menor, um pouco acima na mesma rua.
- Eu queria ração pra cachorro de raça, pequeno – disse ao empregado.
- Deseja alguma marca em particular?
O melhor atirador do mundo pensou por um momento.
- Na caixa está escrito: “Os cachorros ladram por ela” – disse Walter Mitty.
A mulher sairia do cabeleireiro em quinze minutos, pensou Mitty olhando para o relógio, se não tivesse problema para secar os cabelos; às vezes havia problema para secar os cabelos. Ela não gostava de chegar primeiro ao hotel; queria que ele estivesse ali à espera, como de costume. Ele encontrou uma poltrona de couro na entrada, de frente para uma janela, e colocou as galochas e a ração pra cachorro no chão. Pegou um velho número da revista Liberty e afundou-se na poltrona. “Pode a Alemanha Conquistar o Mundo pelo Ar?” Walter Mitty olhou para as fotografias de bombardeiros e de ruas destruídas.
- …O bombardeio deixou o jovem Raleigh muito nervoso, Capitão – disse o Sargento.
O Capitão Mitty levantou os olhos para ele, por entre os ralos cabelos despenteados.
- Metam-no na cama – disse, cansado – Com os outros. Vou voar sozinho.
- Não pode fazer isso, Capitão – disse, ansioso, o Sargento – São necessários dois homens para controlar esse bombardeiro e os inimigos estão fazendo do céu um inferno. O palco dos combates vai daqui até Saulier.
- Alguém tem que chegar àquele paiol – disse Mitty – Lá vou eu. Uma dose de conhaque?
Serviu uma dose para o Sargento e outra para si. A guerra trovejava e gemia à volta da trincheira e fustigava a porta. A madeira estalou e farpas atravessaram a sala.
- Foi por pouco – disse o Capitão Mitty, despreocupadamente.
- O fogo de artilharia aproxima-se – disse o Sargento.
- Só se vive uma vez, Sargento – disse Mitty, no seu sorriso leve e rápido – Não é?
Serviu mais uma dose de conhaque e a engoliu de um trago.
- Nunca vi ninguém agüentar o conhaque como o senhor – disse o Sargento – Com o devido respeito, Capitão.
O Capitão Mitty levantou-se e pôs no ombro a sua gigantesca Webley-Vickers automática.
- São 40 quilômetros de inferno – disse o Sargento.
Mitty acabou uma última dose de conhaque.
- No fundo – disse suavemente – o que é que não é um inferno?
Aumentavam os tiros de canhão; ouviu-se o rá-tá-tá das metralhadoras, e veio de algum lugar o ameaçador poquetá-poquetá-poquetá dos novos lança-chamas. Walter Mitty foi para a porta da trincheira cantarolando “Auprès de Ma Blonde”. Virou-se e acenou ao Sargento: “Até breve!”, disse…
O Capitão Mitty levantou os olhos para ele, por entre os ralos cabelos despenteados.
- Metam-no na cama – disse, cansado – Com os outros. Vou voar sozinho.
- Não pode fazer isso, Capitão – disse, ansioso, o Sargento – São necessários dois homens para controlar esse bombardeiro e os inimigos estão fazendo do céu um inferno. O palco dos combates vai daqui até Saulier.
- Alguém tem que chegar àquele paiol – disse Mitty – Lá vou eu. Uma dose de conhaque?
Serviu uma dose para o Sargento e outra para si. A guerra trovejava e gemia à volta da trincheira e fustigava a porta. A madeira estalou e farpas atravessaram a sala.
- Foi por pouco – disse o Capitão Mitty, despreocupadamente.
- O fogo de artilharia aproxima-se – disse o Sargento.
- Só se vive uma vez, Sargento – disse Mitty, no seu sorriso leve e rápido – Não é?
Serviu mais uma dose de conhaque e a engoliu de um trago.
- Nunca vi ninguém agüentar o conhaque como o senhor – disse o Sargento – Com o devido respeito, Capitão.
O Capitão Mitty levantou-se e pôs no ombro a sua gigantesca Webley-Vickers automática.
- São 40 quilômetros de inferno – disse o Sargento.
Mitty acabou uma última dose de conhaque.
- No fundo – disse suavemente – o que é que não é um inferno?
Aumentavam os tiros de canhão; ouviu-se o rá-tá-tá das metralhadoras, e veio de algum lugar o ameaçador poquetá-poquetá-poquetá dos novos lança-chamas. Walter Mitty foi para a porta da trincheira cantarolando “Auprès de Ma Blonde”. Virou-se e acenou ao Sargento: “Até breve!”, disse…
Algo lhe bateu no ombro.
- Estou à sua procura pelo hotel inteiro – disse a Sra. Mitty – Por que você teve de se esconder nessa cadeira velha? Como é que queria que eu o encontrasse?
- O cerco aperta-se – disse Walter Mitty vagamente.
- O quê? – disse a Sra. Mitty – Você trouxe o não-sei-o-quê? A ração pra cachorro? O que é que está dentro dessa caixa?
- As galochas – disse Mitty.
- Você não podia tê-las calçado na loja?
- Estava pensando – disse Walter Mitty – Nunca lhe ocorreu que eu às vezes posso estar pensando?
Ela olhou para ele.
- Quando chegarmos em casa vou ver se você tem febre – disse.
- Estou à sua procura pelo hotel inteiro – disse a Sra. Mitty – Por que você teve de se esconder nessa cadeira velha? Como é que queria que eu o encontrasse?
- O cerco aperta-se – disse Walter Mitty vagamente.
- O quê? – disse a Sra. Mitty – Você trouxe o não-sei-o-quê? A ração pra cachorro? O que é que está dentro dessa caixa?
- As galochas – disse Mitty.
- Você não podia tê-las calçado na loja?
- Estava pensando – disse Walter Mitty – Nunca lhe ocorreu que eu às vezes posso estar pensando?
Ela olhou para ele.
- Quando chegarmos em casa vou ver se você tem febre – disse.
Passaram pelas portas giratórias que rangiam um tanto zombeteiramente quando empurradas. Estavam a dois quarteirões do estacionamento. Ao chegarem à esquina da farmácia ela disse: “Espere aqui por mim. Esqueci-me de uma coisa. É só um instantinho”. Foi mais do que um instantinho. Walter Mitty acendeu um cigarro. Começou a cair uma chuva fina. Ele pôs-se a fumar encostado à parede da farmácia… Endireitou os ombros e juntou os calcanhares. “Para o inferno com esse lenço”, disse Walter Mitty com desdém. Deu uma última tragada e atirou o cigarro no chão. Depois, com aquele sorriso leve e rápido brincando nos lábios, encarou o pelotão de fuzilamento, impassível, orgulhoso e desdenhoso. Walter Mitty, o invencível, impenetrável até o fim.
sexta-feira, 14 de março de 2014
Chuva
Momentos
como aquele eram raros, ainda era dia, mas o céu já estava mais escuro do que
muitas noites, nuvens de todos os tipos pareciam estar ali para descontar a ira
de algum deus.
Momentos como aquele me faziam pensar,
refletir, eu não ia a igreja, ali era meu templo. Fiquei ali por muito tempo,
só olhando a chuva cair, mas depois de algum tempo, uma mão tocou meu ombro
enquanto dizia.
— Eu preciso de um conselho.
Aquela voz era familiar, não cotidiana,
familiar como sua infância. Me virei sentindo uma mistura de medo, ansiedade e
curiosidade, afinal ninguém sabia daquele lugar, ninguém ia ali há anos.
Mas quando me virei tudo ficou claro, era
Davi, meu amigo de infância, ele era quatro anos mais novo que eu, mas por
algum motivo eu gostava muito dele. Conheci ele quando tinha meus doze anos,
ele tinha oito, ele sempre tirava duvidas comigo, ensinei muita coisa pra ele e
também aprendi muita, ele me viu passar da infância pra adolescência, mas
quando eu fiz quinze anos nós nos afastamos, nossas idéias eram diferentes, e
eu era um adolescente, nunca andaria com uma criança.
Mas dois anos depois ele está aqui,
fazendo a mesma coisa que fazia quando éramos crianças, agora nem eu nem ele éramos
mais crianças, mas a situação se repetia.
— Olá amigo, quanto tempo. — Eu
disse levantando e esticando a mão.
Ele se aproximou
de mim, ignorando a mão entendida e me deu um longo abraço, um abraço
verdadeiro, um abraço de amigos.
— Você está
sumido. — Ele disse, me soltando.
— Tenho passado
por alguns problemas, mas isso não importa, me diga o que te perturba, tentarei
responder da melhor maneira. — Eu lhe disse, sentando novamente.
— Acho que estou
gostando de uma menina, mas eu vejo muito gente dizendo que se apaixonar é
ruim, que é só dor, tristeza, mas também vejo pessoas dizendo que é bom, qual a
resposta correta? Vale a pena se apaixonar?
Aquela pergunta
era de longe a mais difícil que ele já tinha me feito, complexa, pergunta
perigosa, resposta também.
Pensei por um momento, e então lhe respondi :
— Você vai amá-la
como jamais amou alguém, o seu sorriso vai ser mais bonito que qualquer obra de
arte, a sua voz vai soar melhor do que qualquer sinfonia composta pelos maiores
gênios, o seu cheiro vai ser melhor do que qualquer perfume, seu cabelo vai
parecer ter sido feito pelo próprio Deus, você vai viver a época mais feliz da
sua vida. Mas isso vai acabar, um dia acaba, ela vai se cansar de você e vai
embora, você vai ficar triste, sua vida vai parar de fazer sentido, a beleza
das coisas vai sumir, e você só verá a escuridão, você vai viver a pior parte
da sua vida.
É assim, você
vai viver momentos bons e momentos ruins, os momentos ruins não apagam e nem
diminuem os bons, mas o contrario também não acontece, isso é se apaixonar. —
Eu disse me levantando.
O silencio
ficou na varanda por alguns minutos, Davi estava pensando, depois de algum
tempo ele disse :
— Mas você não
respondeu a pergunta, vale a pena se apaixonar?
— Claro que eu
não respondi, a única pessoa que pode responder a sua pergunta é você, eu te
dei o que você precisa saber pra responde-la. — Virei as costas e caminhei.
Eu fiz minha
parte, eu sabia, agora a decisão era dele. A minha resposta eu sabia há muito
tempo.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Prova
Acordei com o suave som da chuva
tamborilando na janela. Leves feixes de luz invadiam meu quarto denunciando a
chegada do dia. Olhei o relógio na parede mas não consegui identificar o
horário, a escuridão e o fato de eu ter acordado recentemente atrapalharam a
minha visão.
Sentei na beirada da minha cama e peguei o
celular que estava na escrivaninha a minha frente, sem bateria. Me levantei e
fui até o interruptor, tentei acender a luz e nada aconteceu. Luz queimada, ótimo, pensei.
Eu não sabia que horas eram então resolvi
me apressar, tomei um rápido banho, encontrei meu estojo e sai de casa.
Eu tinha chegado a cidade fazia menos de
uma semana, não tinha tido tempo para comprar nada além da minha cama, os
estudos tomaram todo o meu tempo.
No caminho parei em uma padaria e perguntei
pelas horas.
— Seis e trinta e sete. — Respondeu aquele
que parecia ser o dono da simples padaria.
Minha prova era só as oito horas, então
resolvi comer algo ali na padaria, pedi um misto quente e um suco de laranja.
Terminei minha refeição, que por sinal
estava muito boa, apesar do humilde lugar. Perguntei o preço para o senhor de
bigode.
— Sete dólares. — Disse ele.
Paguei o homem e fui fazer minha prova.
A escola aonde a prova seria realizada era
gigante, maior que qualquer outra que eu tenha visto na minha cidade natal, os
portões ainda estavam fechados, mas já se aglomeravam um grande numero de
pessoas em frente.
Aproveitei o tempo que parecia faltar pra
revisar o que tinha estudado mentalmente. Depois de aproximadamente uns dez
minutos os portões se abriram e os candidatos começaram a entrar.
Entrei na escola, por dentro ela era ainda
mais magnífica do que por fora. No seu
pátio principal ela tinha um gigante tigre branco pintado em seu piso. Fiquei
algum tempo admirando os imensos corredores e troféus. Até que uma voz veio do
alto falante.
— Atenção todos os candidatos, peço que se
encaminhem para sua sala de prova dentro de cinco minutos.
Peguei a pequena nota que tinha dentro de
meu estojo, nela estava escrito.
"School IGN, Class 21, Desk 7"
Minha sala estava bem a minha frente,
entrei nela e me sentei na minha carteira, depois de alguns minutos um homem
chegou.
Fechou a porta e disse.
— A prova é composta por cinqüenta
questões, vocês tem três horas para terminar, no termino do tempo eu irei
recolher as provas.
Respondi as primeiras quarenta e nove
questões com certa facilidade, mas a ultima questão me fez pensar muito, nela
dizia.
"Escreva uma redação sobre a
felicidade."
Fiquei surpreso com aquele tipo de questão,
mas também feliz, eu tinha pensado muito sobre isso nos últimos tempos, e então
respondi.
"Sabe, eu não acredito na
felicidade. Não acredito que existam pessoas que estejam felizes o tempo todo,
eu acredito que nossa vida é como um livro em branco. A vida é nos dada e cabe
a nós escolhermos o que vamos escrever nela. Felicidade, ou tristeza, dor ou
diversão. É claro que conforme você vai preenchendo essa folha aparecem
escritores, e eles querem escrever na sua folha também, alguns querem escrever
a tristeza, outros a felicidade, cabe a você escolher quem você vai deixar
escrever ou não. É claro que algumas vezes você vai errar, a caneta vai
escorregar, e você vai se arrepender, essa é a diferença entre o livro e a
vida, você não pode apagar seus erros. Você tem que aprender a conviver com
eles, e aprender com eles.
E é
nisso que acredito, nossa vida é repleta de sentimentos felizes e tristes, o
que importa é no final da sua vida, você olhar para trás e ter mais orgulhos do
que arrependimentos, mais felicidades que tristezas.
Então por isso pare de pensar um pouco nos
outros, pense em você mesmo, faça o que tem vontade, corra, pule, ande, brigue,
bata, apanha, escreva um livro, cante uma musica, faça um filho, VIVA. Porque
no final, tudo são lagrimas na chuva."
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
A árvore
Árvore, para um ambientalista é a coisa mais
importante de todo o nosso mundo, é defendida com unhas e dentes, como se fosse
sua própria vida. Para um lenhador é o ganha pão, é aquilo que alimenta ele e
sua família.Para a física, a lei da gravidade.Para um trabalhador do campo representa a sombra e
o seu repouso. Para um macaco a sua casa e sua vida.
Mas eu não sou
nada disso, eu sou um poeta, e tudo aquilo que vejo em árvores são lembranças,
lembranças da minha infância, lembranças da minha juventude, lembranças.
Eu cresci e vivi
toda minha infância na casa de meus avôs paternos, no subúrbio de uma cidadezinha do interior pouco
desenvolvida. Em uma casa cercada por um muro laranja com um banco
simples em frente , que era na verdade duas pedras com uma tabua em cima, nessa
mesma calçada crescia uma árvore gigante, tinha duas vezes o tamanho da casa e
a largura de um poço. Lembro como se fosse hoje, eu chegava da escola guardava
minha bolsa e ia sentar em volta da árvore com meus quatro amigos, poucos, eu
sei, porém os melhores. Aquela árvore
presenciou os planos e devaneios mais loucos que cinco crianças poderiam ter,
foi naquela árvore também que contávamos para pegar no esconde-esconde.
Mas quando eu tinha dez anos alguma coisa
mudou, nós não éramos mais cinco, um de nós se mudou, e tudo ficou diferente,
nós sempre fomos cinco, com quatro não era a mesma coisa.
No próximo ano
ficou pior ainda, eu cresci, terminei o ensino fundamental, tive que me mudar, me
separar de meus amigos, a ultima vez que
nós reunimos foi ali em frente aquela árvore, em uma quinta feira ensolarada.
E foi assim, eu
mudei de escola, fiz novos amigos, e os velhos amigos e as reuniões em frente a
árvore se transformaram em memórias apagadas de um passado distante.
Mas ano passado
meus pais foram fazer uma visita aos meus avôs, eu não ia ver meus amigos, mas
ia ver a árvore, e pra mim já era o suficiente. Muito enganado estava eu.
Meus avôs foram nos buscar na rodoviária, a
cidade tinha mudado, crescido, estava diferente, eu estava ansioso. O caminho
até a casa dos meus avôs foi curto, não mais de 15 minutos, a casa estava do
mesmo jeito que eu a tinha deixado, o muro laranja desbotado e o banco de
madeira, mas a árvore não, a árvore não estava mais lá.
Foi um sentimento
estranho, a árvore tinha tido pra mim a mesma importância que meus amigos ou
até que minha família, e agora ela já não existia mais.
Eu perguntei para
meus avôs porque ela tinha sido tirada mas eles não me responderam.
Mas tudo bem, eu
estava ali para ver minha família, meus primos, meus amigos, e foi isso que
fiz, a semana foi bem agitada para mim, vi amigos esquecidos, primos que eu nem
lembrava, tios engraçados e bebês que agora já tinham namorados.
No fim da semana eu estava bem cansado, mas
também muito feliz, eu tinha ganhado vários presentes. Duas camisas, um
perfume, e um pequeno caderno com uma árvore na capa.
Quando voltei pra
casa guardei todos meus presentes em um
canto e nunca mais mexi neles até o dia de hoje, no caderno que ganhei havia
uma coisa escrita :
" Eae Nog, há quanto tempo, não? Espero que seus avôs
tenham lhe entregado o caderno que lhes dei a tempo, se você está lendo isso
então é provável que tenha percebido que nossa árvore não está mais lá, a
cidade cresceu e o bairro também, as
raízes da arvore atrapalhavam a passagem de canos subterrâneos então ela foi
retirada, uma pena. Mas assim como eu, você sabe que só porque uma coisa não
está inteira não quer dizer que ela não existe mais, a destruição de uma coisa
é o surgimento de outra. A árvore não existe mais em sua forma gigantesca, mais
existe agora na forma em que você toca, nossa amizade agora está registrada na
mesma árvore que presenciou o surgimento dela. Venha me ver meu amigo, estou
morando em Londres, tem uma coisa que preciso te contar. Moro na Baker Street,
221 B.
Que a nossa amizade
seja separada por virgulas, mas nunca por um ponto final. Seu amigo e eterno
companheiro Koud."
Árvore pra mim
significa minha infância, minhas amizades, e agora o meu futuro. Nem tudo o que
acaba, realmente termina.
— Eu vou para
Londres.
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