Árvore, para um ambientalista é a coisa mais
importante de todo o nosso mundo, é defendida com unhas e dentes, como se fosse
sua própria vida. Para um lenhador é o ganha pão, é aquilo que alimenta ele e
sua família.Para a física, a lei da gravidade.Para um trabalhador do campo representa a sombra e
o seu repouso. Para um macaco a sua casa e sua vida.
Mas eu não sou
nada disso, eu sou um poeta, e tudo aquilo que vejo em árvores são lembranças,
lembranças da minha infância, lembranças da minha juventude, lembranças.
Eu cresci e vivi
toda minha infância na casa de meus avôs paternos, no subúrbio de uma cidadezinha do interior pouco
desenvolvida. Em uma casa cercada por um muro laranja com um banco
simples em frente , que era na verdade duas pedras com uma tabua em cima, nessa
mesma calçada crescia uma árvore gigante, tinha duas vezes o tamanho da casa e
a largura de um poço. Lembro como se fosse hoje, eu chegava da escola guardava
minha bolsa e ia sentar em volta da árvore com meus quatro amigos, poucos, eu
sei, porém os melhores. Aquela árvore
presenciou os planos e devaneios mais loucos que cinco crianças poderiam ter,
foi naquela árvore também que contávamos para pegar no esconde-esconde.
Mas quando eu tinha dez anos alguma coisa
mudou, nós não éramos mais cinco, um de nós se mudou, e tudo ficou diferente,
nós sempre fomos cinco, com quatro não era a mesma coisa.
No próximo ano
ficou pior ainda, eu cresci, terminei o ensino fundamental, tive que me mudar, me
separar de meus amigos, a ultima vez que
nós reunimos foi ali em frente aquela árvore, em uma quinta feira ensolarada.
E foi assim, eu
mudei de escola, fiz novos amigos, e os velhos amigos e as reuniões em frente a
árvore se transformaram em memórias apagadas de um passado distante.
Mas ano passado
meus pais foram fazer uma visita aos meus avôs, eu não ia ver meus amigos, mas
ia ver a árvore, e pra mim já era o suficiente. Muito enganado estava eu.
Meus avôs foram nos buscar na rodoviária, a
cidade tinha mudado, crescido, estava diferente, eu estava ansioso. O caminho
até a casa dos meus avôs foi curto, não mais de 15 minutos, a casa estava do
mesmo jeito que eu a tinha deixado, o muro laranja desbotado e o banco de
madeira, mas a árvore não, a árvore não estava mais lá.
Foi um sentimento
estranho, a árvore tinha tido pra mim a mesma importância que meus amigos ou
até que minha família, e agora ela já não existia mais.
Eu perguntei para
meus avôs porque ela tinha sido tirada mas eles não me responderam.
Mas tudo bem, eu
estava ali para ver minha família, meus primos, meus amigos, e foi isso que
fiz, a semana foi bem agitada para mim, vi amigos esquecidos, primos que eu nem
lembrava, tios engraçados e bebês que agora já tinham namorados.
No fim da semana eu estava bem cansado, mas
também muito feliz, eu tinha ganhado vários presentes. Duas camisas, um
perfume, e um pequeno caderno com uma árvore na capa.
Quando voltei pra
casa guardei todos meus presentes em um
canto e nunca mais mexi neles até o dia de hoje, no caderno que ganhei havia
uma coisa escrita :
" Eae Nog, há quanto tempo, não? Espero que seus avôs
tenham lhe entregado o caderno que lhes dei a tempo, se você está lendo isso
então é provável que tenha percebido que nossa árvore não está mais lá, a
cidade cresceu e o bairro também, as
raízes da arvore atrapalhavam a passagem de canos subterrâneos então ela foi
retirada, uma pena. Mas assim como eu, você sabe que só porque uma coisa não
está inteira não quer dizer que ela não existe mais, a destruição de uma coisa
é o surgimento de outra. A árvore não existe mais em sua forma gigantesca, mais
existe agora na forma em que você toca, nossa amizade agora está registrada na
mesma árvore que presenciou o surgimento dela. Venha me ver meu amigo, estou
morando em Londres, tem uma coisa que preciso te contar. Moro na Baker Street,
221 B.
Que a nossa amizade
seja separada por virgulas, mas nunca por um ponto final. Seu amigo e eterno
companheiro Koud."
Árvore pra mim
significa minha infância, minhas amizades, e agora o meu futuro. Nem tudo o que
acaba, realmente termina.
— Eu vou para
Londres.

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