domingo, 23 de fevereiro de 2014

Prova

   

    Acordei com o suave som da chuva tamborilando na janela. Leves feixes de luz invadiam meu quarto denunciando a chegada do dia. Olhei o relógio na parede mas não consegui identificar o horário, a escuridão e o fato de eu ter acordado recentemente atrapalharam a minha visão.
    Sentei na beirada da minha cama e peguei o celular que estava na escrivaninha a minha frente, sem bateria. Me levantei e fui até o interruptor, tentei acender a luz e nada aconteceu. Luz queimada, ótimo, pensei.
    Eu não sabia que horas eram então resolvi me apressar, tomei um rápido banho, encontrei meu estojo e sai de casa.
    Eu tinha chegado a cidade fazia menos de uma semana, não tinha tido tempo para comprar nada além da minha cama, os estudos tomaram todo o meu tempo.
    No caminho parei em uma padaria e perguntei pelas horas.
    — Seis e trinta e sete. — Respondeu aquele que parecia ser o dono da simples padaria.
    Minha prova era só as oito horas, então resolvi comer algo ali na padaria, pedi um misto quente e um suco de laranja.
    Terminei minha refeição, que por sinal estava muito boa, apesar do humilde lugar. Perguntei o preço para o senhor de bigode.
    — Sete dólares. — Disse ele.
    Paguei o homem e fui fazer minha prova.
    A escola aonde a prova seria realizada era gigante, maior que qualquer outra que eu tenha visto na minha cidade natal, os portões ainda estavam fechados, mas já se aglomeravam um grande numero de pessoas em frente.
    Aproveitei o tempo que parecia faltar pra revisar o que tinha estudado mentalmente. Depois de aproximadamente uns dez minutos os portões se abriram e os candidatos começaram  a entrar.
    Entrei na escola, por dentro ela era ainda mais magnífica do que por fora.  No seu pátio principal ela tinha um gigante tigre branco pintado em seu piso. Fiquei algum tempo admirando os imensos corredores e troféus. Até que uma voz veio do alto falante.
    — Atenção todos os candidatos, peço que se encaminhem para sua sala de prova dentro de cinco minutos.
    Peguei a pequena nota que tinha dentro de meu estojo, nela estava escrito.

     "School IGN, Class 21, Desk 7"

    Minha sala estava bem a minha frente, entrei nela e me sentei na minha carteira, depois de alguns minutos um homem chegou.
    Fechou a porta e disse.
     — A prova é composta por cinqüenta questões, vocês tem três horas para terminar, no termino do tempo eu irei recolher as provas.
     Respondi as primeiras quarenta e nove questões com certa facilidade, mas a ultima questão me fez pensar muito, nela dizia.

    "Escreva uma redação sobre a felicidade."

     Fiquei surpreso com aquele tipo de questão, mas também feliz, eu tinha pensado muito sobre isso nos últimos tempos, e então respondi.

     "Sabe, eu não acredito na felicidade. Não acredito que existam pessoas que estejam felizes o tempo todo, eu acredito que nossa vida é como um livro em branco. A vida é nos dada e cabe a nós escolhermos o que vamos escrever nela. Felicidade, ou tristeza, dor ou diversão. É claro que conforme você vai preenchendo essa folha aparecem escritores, e eles querem escrever na sua folha também, alguns querem escrever a tristeza, outros a felicidade, cabe a você escolher quem você vai deixar escrever ou não. É claro que algumas vezes você vai errar, a caneta vai escorregar, e você vai se arrepender, essa é a diferença entre o livro e a vida, você não pode apagar seus erros. Você tem que aprender a conviver com eles, e aprender com eles.
      E é nisso que acredito, nossa vida é repleta de sentimentos felizes e tristes, o que importa é no final da sua vida, você olhar para trás e ter mais orgulhos do que arrependimentos, mais felicidades que tristezas.

     Então por isso pare de pensar um pouco nos outros, pense em você mesmo, faça o que tem vontade, corra, pule, ande, brigue, bata, apanha, escreva um livro, cante uma musica, faça um filho, VIVA. Porque no final, tudo são lagrimas na chuva."

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A árvore


      Árvore,  para um ambientalista é a coisa mais importante de todo o nosso mundo, é defendida com unhas e dentes, como se fosse sua própria vida. Para um lenhador é o ganha pão, é aquilo que alimenta ele e sua família.Para a física, a lei da gravidade.Para  um trabalhador do campo representa a sombra e o seu repouso. Para um macaco a sua casa e sua vida.
     Mas eu não sou nada disso, eu sou um poeta, e tudo aquilo que vejo em árvores são lembranças, lembranças da minha infância, lembranças da minha juventude, lembranças.
      Eu cresci e vivi toda minha infância na casa de meus avôs paternos, no subúrbio de uma  cidadezinha do interior pouco desenvolvida.  Em uma  casa cercada por um muro laranja com um banco simples em frente , que era na verdade duas pedras com uma tabua em cima, nessa mesma calçada crescia uma árvore gigante, tinha duas vezes o tamanho da casa e a largura de um poço. Lembro como se fosse hoje, eu chegava da escola guardava minha bolsa e ia sentar em volta da árvore com meus quatro amigos, poucos, eu sei, porém os melhores.  Aquela árvore presenciou os planos e devaneios mais loucos que cinco crianças poderiam ter, foi naquela árvore também que contávamos para pegar no esconde-esconde.
     Mas quando eu tinha dez anos alguma coisa mudou, nós não éramos mais cinco, um de nós se mudou, e tudo ficou diferente, nós sempre fomos cinco, com quatro não era a mesma coisa.
     No próximo ano ficou pior ainda, eu cresci, terminei o ensino fundamental, tive que me mudar, me separar de meus  amigos, a ultima vez que nós reunimos foi ali em frente aquela árvore, em uma quinta feira ensolarada.
    E foi assim, eu mudei de escola, fiz novos amigos, e os velhos amigos e as reuniões em frente a árvore se transformaram em memórias apagadas de um passado distante.
     Mas ano passado meus pais foram fazer uma visita aos meus avôs, eu não ia ver meus amigos, mas ia ver a árvore, e pra mim já era o suficiente. Muito enganado estava eu.
     Meus avôs foram nos buscar na rodoviária, a cidade tinha mudado, crescido, estava diferente, eu estava ansioso. O caminho até a casa dos meus avôs foi curto, não mais de 15 minutos, a casa estava do mesmo jeito que eu a tinha deixado, o muro laranja desbotado e o banco de madeira, mas a árvore não, a árvore não estava mais lá.
    Foi um sentimento estranho, a árvore tinha tido pra mim a mesma importância que meus amigos ou até que minha família, e agora ela já não existia mais.
    Eu perguntei para meus avôs porque ela tinha sido tirada mas eles não me responderam.
   Mas tudo bem, eu estava ali para ver minha família, meus primos, meus amigos, e foi isso que fiz, a semana foi bem agitada para mim, vi amigos esquecidos, primos que eu nem lembrava, tios engraçados e bebês que agora já tinham namorados.
    No fim da semana eu estava bem cansado, mas também muito feliz, eu tinha ganhado vários presentes. Duas camisas, um perfume, e um pequeno caderno com uma árvore na capa.

   Quando voltei pra casa  guardei todos meus presentes em um canto e nunca mais mexi neles até o dia de hoje, no caderno que ganhei havia uma coisa escrita :
" Eae Nog, há quanto tempo, não? Espero que seus avôs tenham lhe entregado o caderno que lhes dei a tempo, se você está lendo isso então é provável que tenha percebido que nossa árvore não está mais lá, a cidade cresceu e o bairro também,  as raízes da arvore atrapalhavam a passagem de canos subterrâneos então ela foi retirada, uma pena. Mas assim como eu, você sabe que só porque uma coisa não está inteira não quer dizer que ela não existe mais, a destruição de uma coisa é o surgimento de outra. A árvore não existe mais em sua forma gigantesca, mais existe agora na forma em que você toca, nossa amizade agora está registrada na mesma árvore que presenciou o surgimento dela. Venha me ver meu amigo, estou morando em Londres, tem uma coisa que preciso te contar. Moro na Baker Street, 221 B.
   Que a nossa amizade seja separada por virgulas, mas nunca por um ponto final. Seu amigo e eterno companheiro Koud."
   Árvore pra mim significa minha infância, minhas amizades, e agora o meu futuro. Nem tudo o que acaba, realmente termina.
  — Eu vou para Londres.