domingo, 18 de outubro de 2015

Jamais esquecerei


   Você não vai esquecê-la, pode desencanar disso.
   Não vai esquecer aqueles grandes olhos castanhos que te olhavam sabendo que te tinham.      Não vai esquecer aquela boca que quando se curvava em um sorriso era capaz de congelar o tempo. Ou era o tempo que congelava porque também queria aproveitar o momento?
   Não vai esquecer o cheiro que mesmo por essas horas da manhã já era melhor do que a da mais bela flor e do mais caro dos perfumes.
   Não vai esquecer-se dos longos beijos que pareciam drogas pesadas como a tal da cocaína, mas eram apenas os lábios de uma linda menina.
   Seu cabelo, às vezes liso, curto, trançado, pra mim estava certo, nunca errado. Seu cabelo moreno que ao mesmo tempo era minha cura, também era o meu veneno.
   Se tinha defeitos, não fui eu que os encontrei, se encontrei, até mesmo eles ansiei. Porque mulheres como essa. Jamais esquecerei. 

sábado, 3 de outubro de 2015

12 de Outubro



     Sabe, os jovens tem três coisas em comum, todos eles, ou pelo menos a grande maioria.
     Eles são apaixonados, querem mudar o mundo, e são extremamente arrogantes e orgulhosos.
     Eu era os três, mas adivinha só. O tempo não deixa ninguém continuar desse jeito.
     A vida te ensina que o amor não existe, e ela faz isso da pior e mais dolorosa maneira possível. Ela te mostra que por mais orgulhoso e arrogante que você seja, haverá sempre alguém melhor. E quando você tenta mudar o mundo, ele te bate com tanta força que você chega a perder o rumo.
     E mesmo assim eu tentei, tentei mudar o mundo de todas as formas possíveis, eu fui a passeatas, fui a clubes de debates, discuti com pessoas, eu até tentei virar politico.
     Mas não adiantava, as pessoas continuavam sendo estupidas, a desigualdade continuava a existir e as mortes nunca paravam.
     Então eu realizei que não tinha como mudar o mundo, pelo menos não pacificamente.        Juntei-me a um grupo de alguns outros que pensavam como eu, nós começamos como vândalos, quebrando bancos, pontos turísticos e locais políticos da cidade. Pois é, eu estava lendo muito Palahniuk.
     A primeira vez que matei foi um policial, ele atirou em um de nós enquanto nós derrubávamos o relógio da estação da luz. Ele não merecia morrer, mas entrou no nosso caminho. A segunda vez foi um vereador qualquer, foi logo após nós decidirmos que se a policia só se preocupava com os bandidos errados, nós é que cuidaríamos dos bandidos certos, mas não iriamos prender ninguém.
     E dessa vez eu gostei.
     A nossa ultima ação foi aqui mesmo, em São Paulo. A presidente ia vir aqui fazer um discurso para as pessoas, era doze de outubro, Dia das Crianças e também de Nossa Senhora.
     Não haveria data melhor, ninguém iria suspeitar que a pessoa mais poderosa do Brasil ia ser morta bem ali, na frente de milhares de Brasileiros, e transmitido para milhões pela Tevê bem no dia de Nossa Senhora. Era o plano perfeito.
     E deu certo, matamos a desgraçada, o sangue escorria por todo o palanque, mas o nosso plano só tinha um lado, não sabíamos como fugir, e ninguém ali queria morrer, nem ser preso. Foi assim que começou a chacina.
     Duas dúzias de assassinos e revolucionários, trocando tiros contra dezenas, talvez centenas de policias e no meio uma multidão de civis, era dia das crianças.
     Tentei correr pela rua, naquela hora a revolução tinha acabado, tudo que eu sentia era medo.
     Na minha frente, um porco fardado. Atirei, matei. Eu já ia voltar a correr quando eu vi. Uma negra, e uma criança nos braços deitados no chão sangrando, morrendo. O que eu fazia ali? Eu me tornei naquilo que eu lutava contra. Naquela hora eu me arrependi. A criança e sua mãe estavam mortas, e o pior era Dia das Crianças e de Nossa Senhora de Aparecida.
     E foi assim que na minha ânsia de mudar o mundo, o mundo acabou.
     Eu deixei o mundo me mudar.