sexta-feira, 14 de março de 2014

Chuva

   
   Eu olhava a chuva cair em um ritmo acelerado enquanto comia minha maçã na varanda.
   Momentos como aquele eram raros, ainda era dia, mas o céu já estava mais escuro do que muitas noites, nuvens de todos os tipos pareciam estar ali para descontar a ira de algum deus.
     Momentos como aquele me faziam pensar, refletir, eu não ia a igreja, ali era meu templo. Fiquei ali por muito tempo, só olhando a chuva cair, mas depois de algum tempo, uma mão tocou meu ombro enquanto dizia.
   — Eu preciso de um conselho.
    Aquela voz era familiar, não cotidiana, familiar como sua infância. Me virei sentindo uma mistura de medo, ansiedade e curiosidade, afinal ninguém sabia daquele lugar, ninguém ia ali há anos.
   Mas quando me virei tudo ficou claro, era Davi, meu amigo de infância, ele era quatro anos mais novo que eu, mas por algum motivo eu gostava muito dele. Conheci ele quando tinha meus doze anos, ele tinha oito, ele sempre tirava duvidas comigo, ensinei muita coisa pra ele e também aprendi muita, ele me viu passar da infância pra adolescência, mas quando eu fiz quinze anos nós nos afastamos, nossas idéias eram diferentes, e eu era um adolescente, nunca andaria com uma criança.
    Mas dois anos depois ele está aqui, fazendo a mesma coisa que fazia quando éramos crianças, agora nem eu nem ele éramos mais crianças, mas a situação se repetia.
    — Olá amigo, quanto tempo. — Eu disse levantando e esticando a mão.
   Ele se aproximou de mim, ignorando a mão entendida e me deu um longo abraço, um abraço verdadeiro, um abraço de amigos.
   — Você está sumido. — Ele disse, me soltando.
   — Tenho passado por alguns problemas, mas isso não importa, me diga o que te perturba, tentarei responder da melhor maneira. — Eu lhe disse, sentando novamente.
   — Acho que estou gostando de uma menina, mas eu vejo muito gente dizendo que se apaixonar é ruim, que é só dor, tristeza, mas também vejo pessoas dizendo que é bom, qual a resposta correta? Vale a pena se apaixonar?
    Aquela pergunta era de longe a mais difícil que ele já tinha me feito, complexa, pergunta perigosa, resposta também.
Pensei por um momento, e então lhe respondi :
   — Você vai amá-la como jamais amou alguém, o seu sorriso vai ser mais bonito que qualquer obra de arte, a sua voz vai soar melhor do que qualquer sinfonia composta pelos maiores gênios, o seu cheiro vai ser melhor do que qualquer perfume, seu cabelo vai parecer ter sido feito pelo próprio Deus, você vai viver a época mais feliz da sua vida. Mas isso vai acabar, um dia acaba, ela vai se cansar de você e vai embora, você vai ficar triste, sua vida vai parar de fazer sentido, a beleza das coisas vai sumir, e você só verá a escuridão, você vai viver a pior parte da sua vida.
   É assim, você vai viver momentos bons e momentos ruins, os momentos ruins não apagam e nem diminuem os bons, mas o contrario também não acontece, isso é se apaixonar. — Eu disse me levantando.
   O silencio ficou na varanda por alguns minutos, Davi estava pensando, depois de algum tempo ele disse :
   — Mas você não respondeu a pergunta, vale a pena se apaixonar?
   — Claro que eu não respondi, a única pessoa que pode responder a sua pergunta é você, eu te dei o que você precisa saber pra responde-la. — Virei as costas e caminhei.


    Eu fiz minha parte, eu sabia, agora a decisão era dele. A minha resposta eu sabia há muito tempo.

2 comentários: